E então os fluidos vêm, agarrar-nos na nossa imaterialidade e, aos poucos, arrancar-nos das órbitas de um corpo-olhar, branda mas não suavemente, como quem arranca um penso dolorosamente antigo sem a força da indiferença.
Da tona desse sítio líquido vemos a contrastante cegueira imersa em realidade; escoa-se-nos a presença sobre o chão por baixo, agora feito de vertigens vagas, indissolúveis neste eclipse de mar, nesta ausência cósmica de astros.
Somos então o seu reflexo, um brilho espectral e invisível, jorrando o negro intenso do vazio, o sangue escuro da física obsoleta.
Bóiando em queda, o ofegante dos pulmões afoga-se, a mágoa sonolenta esbate-se em fundos, e o coração dispersa-se neste etéreo buraco das lógicas cerebrais e emocionais.
Só a corrente turva nos comanda, de múltiplas direcções contrapostas, e de um sentido impenetrável, meramente perturbada por esporádicos espasmos-geisers, reminiscências neuróticas da lei da gravidade.
Nesta toca de compostos sem química, o mundo não cabe e, como ele, o tédio ou a pessoa são concretismos do lado de lá de uma varanda de alma sob a qual desce um baço abstracto, o vidro embaciado de nulidade pela respiração do indefinível.